Elvira Vigna não é para descuidados

Capa do livro publicado pela Companhia das Letras

Deixei ele lá e vim atravessou o oceano e ficou parado na minha livraria mais ou menos uns seis meses. Quando li a notícia do falecimento de Elvira Vigna pensei que tinha chegado a hora de lê-lo.
O início da leitura foi quase irritante, me senti perdida. Resisti e quando terminei o livro fiquei olhando para ele sem saber o que pensar. Recomecei. Foi aí que entendi o fantástico trabalho de construção do texto feito por Elvira Vigna, uma autora que pisca o olho continuamente para o seu leitor, e repete: vejamos se você descobre o que eu ando escondendo.
A narradora de Elvira Vigna desconcerta e avisa logo no início do romance que a “história tem falhas, buracos. E pior: vou preenchê-los.” (p. 10). Ao longo do texto vamos encontrando muitas vezes e de diferentes maneiras as provas desta intenção inicial. Ora afirma que inventa enredos e acontecimentos tanto sobre o passado quanto sobre o futuro; ora manifesta sua insegurança sobre o que aconteceu realmente. Mais tarde diz que mente desde criança e depois fala que informa “tudo quase tudo certo” (p. 138) a seu respeito. Uma narradora ambígua que não dará certezas ao longo do romance e se o leitor deseja conclusões deve chegar sozinho a elas.
A morte, ou assassinato, de Dô é um pretexto para que Shirley Marlone dê voz ao desconforto de ser quem é. Uma personagem nomeada e inventada, “Steve acha que meu nome é Shirley. Shirley Marlone”(p. 86); fragmentada, “fazer com que meus pedaços, sempre tão díspares, se integrem” (p. 24); mulher e homem, “quando eu também, caricato, ridículo, falso, rebolava para tentar ser alguma coisa” (p. 145).
Nomes não têm importância para a narradora: Dô, Dorothy, Maria das Dores, Bibbi, Bubbi, Bibu, Bubby, Bibi, Bubi, Biby, Buby ou Bubu. Tanto faz, ou depende do contexto. A única certeza é Meire, a única com nome e sobrenome.


Uma leitura mais que indicada.

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