Cabra marcado para morrer
Neste mês de Julho, a Cinemateca do Matadero, em Madri,
exibe o ciclo 60 años documental
Iberoamericano. O documentário Cabra
marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, faz parte da programação nos dias
02 e 09.
Em 1962, membros do Centro Popular de Cultura (CPC), órgão
da União Nacional do Estudantes (UNE), participavam duma caravana que percorria
o país para promover a discussão da reforma universitária. Eduardo Coutinho era
um dos participantes do grupo que chegou no estado da Paraíba em abril daquele
ano, duas semanas depois do assassinato do líder da Liga Camponesa da Paraíba, João
Pedro Teixeira, morto numa emboscada organizada pelos latifundiários da região.
O CPC presencia as manifestações dos camponeses durante o enterro do líder e nos
dias seguintes e daí surge a ideia de fazer um filme que conte a história de João
Pedro Teixeira.
Dois anos mais tarde, em 1964 portanto, as filmagens deveriam
iniciar, mas os conflitos armados na região,a morte de onze pessoas e a invasão
daPolícia Militar obrigaram a equipe a transferir as rodagens para o Engenho
Galileia, no estado de Pernambuco. A viúva de João Pedro Teixeira, Elizabeth
Teixeira, interpretava o seu próprio papel e os demais atores eram camponeses
do engenho. Em abril do mesmo ano, o golpe militar altera os rumos do país e as
rodagens tiveram que ser suspendidas. O exército invadiu o Engenho da Galileia,
apreendeu o material de rodagem e prendeu os membros da equipe que encontrou.
Felizmente, parte do material havia sido enviada ao Rio de Janeiro para a edição
e escapou da apreensão.
Em 1982, Eduardo Coutinho consegue reaver o material
das rodagens e volta a filmar. Sem um roteiro preestabelecido, o diretor volta
ao Engenho Galileia, reúne os atores da época, entrevista-os e apresenta ao
espectador a vida destes camponeses. Ao narrar a história de marido assassinado,
Elizabeth Teixeira torna-se a protagonista da história. O desenrolar do
documentário mostra muitos aspectos do Brasil: a história de João Pedro e de
Elizabeth é o retrato da luta de classes, o esfacelamento da família e a
mudança de alguns dos filhos do casal para o Rio de Janeiro é exemplo dos
motivos que levam os camponeses a migrarem para os grandes centros urbanos, a interrupção
das filmagens e clandestinidade de Elizabeth são duas das muitas faces da
ditadura militar, e a presença das religiões protestantes é já um indício da
força que exerceriam no Brasil atual.
Um documentário
necessário para conhecer o Brasil.
O trailer abaixo
inicia com o coco* que Elizabeth cantava para os filhos quandos os capangas do
latifúndio rodeavam a casa da família para intimidá-la.
*Coco: cantiga
em compasso binário ou quaternário normalmente acompanhada por percussão.
Outros filmes
brasileiros que fazem parte da programação do mês de julho na Cinemateca do
Matadero:
Branco sai,
preto fica: dia 12, às 20:00h e dia 19, às 19:30h.
Terra em transe:
dia 24, às 18:00h (gratuito).
Rocha que voa:
dia 24, às 20:30h seguido de bate-papo com Maria Luisa Ortega professora da
Universidade Autôma de Madri (gratuito).
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