Você vai voltar pra mim
A primeira vez que ouvi falar de Bernardo Kucinski foi
em 2016, no Dia da Língua Portuguesa. Eu era leitora na Universidade de Roma
Tor Vergata, o colega responsável pela disciplina tinha organizado um encontro
com tradutores e editores de autores de Língua Portuguesa e entre os
participantes estava Vincenzo Barca, o tradutor italiano di Kucinski. Sentada
entre os estudantes me senti mais aluna do que eles enquanto ouvia as
considerações dos presentes sobre a Literatura de Língua Portuguesa
contemporânea. E quando Vincenzo começou a falar sobre K. – Relato de uma busca me dei conta de quantas coisas eu não
sabia sobre a ditadura militar no Brasil. A única coisa que a escola tinha deixado
na minha memória era o nome dos generais que se sucederam na presidência e a
televisão tinha conseguido marcar a imagem de João Baptista Figueiredo, o
último militar a ocupar o poder.
Anotei o nome de Kucinski no meu cardeninho e iniciei
a minha busca infrutífera. Com o fechamento da Cosac Naify, o depósito da
editora foi parar nas mãos da Amazon e a edição de K. – Relato de uma busca estava esgotada. Felizmente a editora
publicou outro livro do autor: Você vai
voltar pra mim. Um livro de contos posterior ao romance que eu procurava e
que também aborda a ditadura militar.
Apesar de não ser a minha primeira opção, o livro não
deixa a desejar. A escrita de Kucinski é fluida e os contos são breves, mas
isso não impede a sensação de desconforto e de impotência durante a leitura. O livro
não faz um discurso acusatório ou ideológico, são as próprias narrativas que
apresentam os fatos e que chocam, que doem ou que provocam medo. O conto que dá
nome ao livro é um bom exemplo da prosa limpa e direta de Kucinski. Os
personagens do autor mostram as diferentes caras da ditadura: mães que lutaram
pela liberação dos seus filhos e dos filhos alheios (A beata Vavá) ou as que simplesmente rezaram por eles (A mãe rezadeira), pais que nunca puderem
enterrar seus filhos (O velório),
inocentes que não tinham nenhuma participação na militância mas que foram
igualmente punidos (O garoto de Liverpool),
órfãos de desaparecidos abandonados em abrigos à espera de não se sabe o quê (Cenas de um sequestro) ou a corrupção
que parece ser a única que passou incólume pela ditadura (Dr. Carlão). Você vai voltar
pra mim torna a ditadura militar mais viva e concreta e este obscuro
período da história deixa de ser parte do passado durante a leitura.
Para quem quiser completar a leitura com outros
projetos artísticos, recomendo o trabalho do fotógrafo argentino Gustavo
Germano. Em 2012, ele realizou o projeto Ausencias,
dedicado aos desaparecidos da ditadura militar no Brasil e na Argentina.
Germano recria as fotos dos álbuns de família dos desaparecidos com as pessoas
que sobreviveram à ditadura. Entre as fotografias do projeto há uma de Ana Rosa
Kucinski Silva, irmã de Bernardo. Veja aqui o projeto de Gustavo Germano.
Do lado brasileiro, Gilvan Barreto também fez um
trabalho muito interessante utilizando como fonte o relatório da Comissão
Verdade, instituída pelo governo federal em 2012 e que investigou as violações
dos direitos humanos acontecidas no Brasil entre 1946 e 1988. O relatório final
foi publicado em dezembro de 2014 e está disponível no site da própria Comissão. Aqui você pode conhecer o trabalho de Gilvan Barreto. Quem mora em Madrid pode conferir as fotografias de Barreto
na exposição Confluencias, 10 años de
Trasatlántica, parte do Photo España 2017, na Casa de América.
Quase terminando: em 2016, a Companhia das Letras
lançou uma edição do romance de Kucinski, mas eu continuo pensando que um
desses sebos maravilhosos que existem no Brasil um dia há de me presentear com a
edição da Cosac Naify de K. – Relato de
uma busca.
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| Postcards from Brazil – Gilvan Barreto |
Terminando: O Vincenzo não sabe, mas graças a ele
acrescentei muitos nomes ao meu caderninho de leituras. Obrigada, querido.


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