Mário de Sá-Carneiro
Maio é o mesmo do nascimento de Mário de
Sá-Carneiro e não poderíamos terminar o mês sem fazer a nossa pequena homenagem
a um dos grandes nomes do modernismo português. Junto com Fernando Pessoa, foi
um dos criadores do Orpheu e as cartas que enviou de Paris revelam a
importância que atribuía a Pessoa. Maio também foi um mês importante para
Sá-Carneiro em 1913. Nas missivas que enviou a Lisboa durante este mês, estão
quase todos os poemas que fariam parte do livro Dispersão, publicado no final daquele ano. Um título que
Sá-Carneiro carregou consigo toda a sua vida e que encontramos ao longo dos
poemas: “sou labirinto, sou licorne e
acanto”, “corro em volta de mim”, Tombei.../E fico esmagado sobre mim.” Mas
em Dispersão também encontramos o outro lado: “A tristeza de nunca sermos dois”; um eu que vive no passado, sem
presente ou futuro: “Para mim é sempre
ontem,/Não tenho amanhã nem hoje”. Um escritor que não teve uma relação
pacífica com a vida, “A vida corre sobre
mim em guerra.”
Tantas afirmações de um poeta que fez das suas
fragilidades, da sua angústia e da sua aflição tema da sua literatura e que até
hoje marca a literatura portuguesa.
| Início do poema Dispersão. Imagem da 2ª edição |
E há o outro lado da história. O Mário de Sá-Carneiro que eu conheci no mestrado e que me acompanhou por um período. Foi com o Esfinge Gorda, como ele se chamou e como eu passei a chamá-lo, que os seminários sobre a ficção do eu na Universidade de Lisboa ganharam mais sentido. Enquanto lia Sá-Carneiro fui descobrindo, no mundo real e com pouco literatura, o que significava ser estrangeira, viver outro país, outra cultura, ouvir outro modo de falar e conhecer diferentes maneiras de se relacionar. Foi fácil? Não. Mas foi bonito.
Enquanto lia Sá-Carneiro, fui descobrindo que aquele jeito de ver o
mundo que tinha vindo comigo do Brasil comigo não era o único, fui aprendendo que
o café-da-manhã era pequeno-almoço, que o ôniburs era autocarro e que a fila era bicha. Também vi
crescer em mim outro eu, que às vezes andava de mãos dadas com aquele eu
brasileiro e às vezes brigava e batia no outro. Como esquecer aquelas horas
passadas na Pastelaria 1800, no Largo do Rato, quem sabe se como as que passava
Sá-Carneiro nos cafés de Paris? Não sei. Ele não chegou a terminar o curso de
Direito na Sorbonne e eu também não terminei o mestrado em Lisboa. Afinidades
que produziram angústias e fragilidades, mas, ao contrário dele, eu saí viva da
experiência e não faço literatura.
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